21/03/2017

Como era a vida dos Escravos em Portugal

Via -  Sábado

O historiador Arlindo Manuel Caldeira passou dois anos na Torre do Tombo a investigar o quotidiano dos milhares de escravos que foram trazidos para Portugal a partir do século XV. Conheça algumas histórias





Cerca de 400 mil mulheres, homens e crianças, africanos, mouriscos e asiáticos, foram escravizados em Portugal entre o século XV e o século XVIII. Estas são as histórias de alguns deles, publicadas no livro Escravos em Portugal, lançado esta semana, pelo historiador Arlindo Manuel Caldeira. Os pormenores das suas vidas foram descobertos na Torre do Tombo, a maioria nos processos da Inquisição.

Meni, 40 anos, moura

A mulher, branca, era escrava de um tal Francisco Nobre. Tinha sido baptizada, mas continuava a praticar o islamismo. Por volta do anos de 1554 quis fugir e pagou ao dono de uma caravela que fazia viagens a Marrocos, Francisco Baião, dez mil réis para levá-la consigo. "Nos esteiros de Setúbal, já à vista da cidade, sem qualquer pretexto, Baião deu com um pau na cabeça da sua passageira e lançou-a, de seguida, ao mar. Antes de se afundar definitivamente, ela ainda terá perguntado porque a matava. Ao que ele terá respondido qua a matava para não a levar a terra de mouros, o que era um truísmo, embora pretendesse ser uma declaração de militância religiosa."

Anúncios de jornal
No século XIX, bem depois do alvará de 1761 que proibiu a entrada de escravos em Portugal, eram publicados anúncios de compra e venda de escravos.
"Quem quiser comprar três escravas, duas pardas e uma preta, fale na loja de capela de Paulo Conrado, no seu arruamento [rua dos Capelistas, hoje Rua do Comércio]. Gazeta de Lisboa, n.º20, 16 de Maio de 1809, Suplemento Extraordinário"
"Pretende-se comprar um escravo de 12 até 16 anos de idade. Quem o quiser vender, fale com António Joaquim de Castro Rebelo, que assiste no principio da Calçada do Garcia, bem defronte do Corregedor do Cível da Cidade Joaquim José Jordão. Correio Mercantil e Económico de Portugal, n.º23, a 9 de Junho de 1789"

Grácia, 20 anos, africana
Grácia, teria 20 anos em 1762, quando vivia na casa de Francisco José Marrecos, despenseiro do Tribunal do Santo Ofício de Évora. Sofria de problemas de saúde, desconsideradas como tais pelo senhor que a espancava com bengala grossa por achar que era preguiçosa.
""Desta vez usou um ‘apeiro de carreta’ [tira de couro que prende a canga dos animais ao cabeçalho do carro), dando-lhe umas vezes por cima da roupa, outras levantando-lhe a saia, para aumentar a eficácia do castigo. Nessa altura, Grácia já só dizia: ‘oh senhor, oh senhor’ ou  ‘Deixe-me, deixe-me senhor’.
A escrava morreu sentada num estrado. O senhor foi chamar o confessor. "Quando voltaram com o padre, Grácia já era cadáver, mas o sacerdote não hesitou em concluir que a causa da morte fora uma birra e que tinha sido pena não ter chegado mais cedo, pois, com um tição de fogo, forçaria a escrava a abrir a boca e a respirar e tudo teria resolvido."

Tentativas de fuga
Vítimas e abusos sexuais e agressões violentas, muitos escravos tentavam a fuga. Eis alguns anúncios de jornais sobre "escravos fugidos":
"Fugiu a João Cosme Dantas, morador à Cruz dos Quatro Caminhos, um escravo por nome João Rodrigues, rapaz que terá de idade 15 anos, que veio na nau da Índia e dizia que era de Macau. Foi comprado em Moçambique. Tem Uma ferida pequena sobre a sobrancelha esquerda, levou uma véstia de pano e um calção de tripe azul. É espigadote e magro, bem feito e de olhos grandes. Foi descalço. Hebdomadário Lisbonense, n.º4, 26 de Julho de 1766."
Violante, 25 anos, africana
Violante Rosa tinha 10 anos quando foi comprada, em 1774, por João Teixeira de Macedo, homem de 50 anos, solteiro que morava no Bairro Alto, em Lisboa, e era dono de uma quinta em Cabeceiras de Basto. Aos 25 anos interpôs uma a acção de liberdade contra o seu senhor, devido aos maus tratos que recebia.
"Terá começado por acariciá-la e fazer-lhe propostas indecorosas e acabaria por estuprá-la, continuando a ter relações sexuais mais ou menos regulares. Em 1778, Violante, que era então ainda uma adolescente, acabou por engravidar."
O senhor aprisionava-a na quinta, com ciúme de outros homens. Violante teve duas crianças, um rapaz e uma rapariga que terão, como era costume na altura, sido depositados na roda dos expostos. Mas a sua sorte muda, quando João Teixeira de Macedo morre e é encontrada entre os papéis de testamento uma carta de alforria para Violante.
"O documento foi decisivo para a decisão do juiz, que, a 8 de Outubro de 1789, considerou Violante livre ‘desde o tempo em que se lhe concedeu liberdade, para que dela possa usar como qualquer pessoa livre.’"

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