26/03/2017

História e Cultura Afro-Brasileira - A Mina maranhense, seu desenvolvimento e suas relações com outras tradições afro-brasileiras



A Mina maranhense, seu desenvolvimento e suas relações com outras tradições afro-brasileiras 
Publicado em MAUÉS, R. e VILLACORTA, G. Pajelança e religiões afro-brasileiras. Belém: EDUFPA.


Apesar do prestígio do candomblé e do avanço da umbanda em todo o Brasil e, embora muitos terreiros maranhenses estejam se apresentando como “de umbanda” e incorporando elementos do candomblé, a mina - religião afro-brasileira típica do Maranhão continua dominante na capital e muitos terreiros maranhenses continuam sendo conhecidos como de terecô ou de curador. Mas como a mina, além de mais antiga e hegemônica na capital, foi mais estudada, o Maranhão é sempre lembrado como “terra de mina”. No entanto, o tambor de mina do Maranhão não é um campo religioso homogêneo. Sua divisão em “nações” reflete diferenças culturais existentes entre os africanos que fundaram os primeiros terreiros e também a valorização atual da África em terreiros abertos por afrodescendentes. Como as Casas das Minas e de Nagô foram fundadas por africanas, o que lhes garante uma posição vantajosa no campo religioso constituído pelos terreiros que se definem como “mina”, não é de se estranhar que continuem procurando manter as tradições deixadas por suas fundadoras e que resistam à integração de elementos de outras tradições (africanas ou afro-brasileiras). Por essa razão, embora existam fora do estado casas mais prestigiadas, elas permanecem únicas e diferenciadas. Também não é de se estranhar que terreiros mais novos que aquelas sejam mais inclinados a mudanças e, quando fundados por afro-descendentes que se definem como tal, procurem se africanizar absorvendo conhecimentos em bibliografia produzida por pesquisadores e lideres religioso ou buscado “fundamentos” africanos ou maior legitimação fora do estado, em terreiros mais prestigiados. A busca de iniciação na religião afro-brasileira ou da confirmação de pais e filhos-de-santo junto a sacerdotes de terreiros mais prestigiados é um processo bem antigo, principalmente em direção à Bahia. Não sabemos se esse processo ainda vai atingir as centenárias Casas das Minas e de Nagô do Maranhão, pois, além de muito fechadas e de nelas só as mulheres receberem voduns e orixás, deixaram há muito de fazer iniciação completa, hoje tão exigida no candomblé. Os terreiros de mina, terecô e curas maranhenses menos africanizados ou menos empenhados na afirmação de uma identidade africana estão procurando maior legitimação e aceitação na sociedade mais ampla junto à umbanda, sendo um dos primeiros passos nesse processo a sua filiação à Federação de Umbanda e Cultos Afro-Brasileiros do Maranhão. Quando se fala em difusão das tradições religiosas afro-brasileiras do Maranhão para outros estados, embora só se costume fazer referência à expansão do tambor de mina nas cidades de Belém e de São Paulo - a primeira no estado vizinho do Pará, e a segunda pólo de atração de migrantes nordestinos - a mina tem chegado também a outras cidades e regiões e tem levado consigo muitos elementos do terecô, já há muito incorporados a ela em terreiros de São Luís. Mas, fora da capital maranhense, ela aparece mais freqüentemente integrada ou confundida com a umbanda, devido o espaço por ela destinado aos caboclos e ao catolicismo popular, e, nos terreiros menos africanizados, ao grande número de músicas cantadas em português e várias outras características encontrados na umbanda. No que diz respeito à preservação e repasse dos conhecimentos tradicionais em terreiros maranhenses, as casas mais antigas concentram o saber na mão de poucas pessoas e essas só procuram repassá-los no fim da vida, o que tem acarretado muitas perdas. A maioria das vodunsis (filhas-de-santo) aprende quase só o que viram e ouviram em suas permanências no terreiro em períodos de festas e obrigações e, na maioria das vezes das vodunsis incorporadas com suas entidades espirituais. Em decorrência disso, a Casa das Minas tem rejeitado convites, inclusive de órgãos de cultura do estado, para documentar em discos e vídeos os seus cânticos e rituais. Por essa razão, terreiros mais novos e mais influenciados por tradições que não existiam no Maranhão, até a algumas décadas, têm maior visibilidade na mídia e podem aparecer ao “grande público” como os principais herdeiros dos africanos que iniciaram a mina do Maranhão.



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