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12/10/2018

Discurso de Jair Bolsonaro legitima violência nas ruas, dizem especialistas

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Escalada de ataques a opositores cometidos por apoiadores do candidato do PSL nas últimas semanas preocupa
Rio - Na madrugada após a votação do primeiro turno das eleições, em Salvador, um mestre de capoeira foi assassinado com 12 golpes de faca após um bate-boca de bar em que declarou apoio ao PT. O autor das facadas era eleitor de Jair Bolsonaro. Este crime não foi o único motivado pelo ódio político nas últimas semanas, embora tenha sido o de desfecho mais trágico. Para Michael Mohallem, professor de Direitos Humanos e coordenador do Centro de Justiça e Sociedade (CJUS) da FGV, o discurso do presidenciável legitima e incentiva certas posturas agressivas", o que explicaria em parte a onda de violência cometida por apoiadores do ex-capitão do Exército.

Apenas algumas horas antes do crime em Salvador, em Recife, também no Nordeste, uma jornalista do portal NE10 foi agredida e ameaçada de estupro, logo após votar, por dois homens. Segundo o Boletim de Ocorrência registrado na delegacia do Espinheiro, um deles usava uma camisa em favor do candidato do PSL. De acordo com a mulher, que teve o rosto e os braços cortados, o agressor teria dito: "quando o comandante ganhar, essa imprensa toda vai morrer".

 "Além disso, Bolsonaro mobiliza uma rede de ressentimento acumulada nos últimos anos diante das conquistas de novos sujeitos políticos, como pessoas negras, mulheres, população LGBTI e indígenas, supostamente 'privilegiadas' em detrimento da maioria. Quando, na verdade, (ao invés de privilegiadas) o que conquistaram é igualdade pura e simples, é algum tipo de compensação pela vulnerabilidade social excessiva", completa Moysés Pinto Netto, filósofo e professor da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

Escalada de violência

Após a morte do capoeirista, Bolsonaro disse em entrevista que "não tem como controlar seus eleitores". Nesta quinta-feira, porém, repudiou a onda de violência. O candidato do PT, Fernando Haddad, também disse estar preocupado com a escalada de ataques às vésperas do segundo turno.

Um levantamento feito pela Agência Pública, em parceria com a Open Knowledge Brasil, mostra que houve pelo menos 50 ataques feitos por apoiadores de Bolsonaro em todo o país desde o último dia 30. Além dos dois crimes registrados logo depois da votação, a lista é engrossada por outros casos e diversos relatos nas redes sociais.

No dia 25 de setembro, uma administradora do grupo "Mulheres contra Bolsonaro" foi agredida por três homens armados na porta de casa, no Rio de Janeiro. A Polícia Civil não confirmou que o crime tenha tido motivação política. Algumas semanas antes, ela e outras administradoras foram ameaçadas de morte por apoiadores de Bolsonaro, que haviam hackeado o grupo.

Nesta quarta-feira, em Porto Alegre, uma jovem de 19 anos registrou Boletim de Ocorrência por ter sido agredida enquanto usava uma camisa com os dizeres "Ele não" - campanha contrária a Jair Bolsonaro. Os agressores usaram um canivete para fazer cortes no formato de uma suástica nazista em sua barriga.

No sábado anterior às eleições, Julyanna Barbosa, uma transsexual ex-vocalista da Furacão 2000, foi agredida com golpes de barras de ferro, socos e chutes no Rio de Janeiro. A vítima registrou Boletim de Ocorrência na 56ª DP e disse que, antes de começar a ser agredida, ouviu a seguinte frase: "Bolsonaro vai ganhar para acabar com os veados, essa gente lixo tem que morrer".

Ameaças também nas redes sociais

Além dos casos de agressões consumadas em que houve registro de BO, as redes sociais foram inundadas por relatos de ameaças e agressões que não chegaram até a delegacia: seja porque não se concretizaram, seja por medo por parte da vítima. O site Mapa da Violência reúne algumas delas, e é um canal livre para denúncia.

Alguns dos relatos se situam no campo da violência simbólica, o mesmo tipo de violência contida no caso em que Rodrigo Amorim e Daniel Silveira, candidatos à deputados pelo PSL, aparecem posando com uma placa em homenagem a Marielle Franco quebrada.

"O caso da placa foi muito marcante, dá margem para interpretações diversas. Um indivíduo quebra a placa em homenagem à vereadora de um partido de esquerda que foi brutalmente assassinada e quem vê essa cena pode ser levado a acreditar que houve apoio à execução", explica Michael Mohallem. "Esse tipo de violência simbólica, junto com outros sinais que vão surgindo, acaba legitimando casos de violência", conclui. Rodrigo Amorim foi o deputado estadual mais votado do estado, e Daniel Silveira se elegeu deputado federal.

"Bolsonaro reforça essa estrutura porque ele pensa dessa maneira", comenta Guilherme Carvalhido, cientista político e professor da Universidade Veiga de Almeida. Em um ato de campanha no Acre, no início de setembro, Bolsonaro simulou uma metralhadora com o tripé de uma câmara e disse que iria "fuzilar a petralhada aqui do Acre" e fazê-los "comer capim". A Procuradoria Geral da República (PGR) pediu esclarecimentos. À imprensa, sua campanha disse que se tratava apenas de uma "brincadeira".

O levantamento mostra também que foram registrados seis casos de agressão contra eleitores de Bolsonaro, como o de um professor da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) que teria atropelado ambulantes que vendiam camisas favoráveis ao ex-capitão. Em nota, a faculdade disse que não houve atropelamento "ou qualquer tentativa de atitude dolosa", mas sim que o professor se sentiu ameaçado e, ao se retirar "bruscamente" do local, acabou arrastando um varal de camisas.

Ataques também a mulheres

Em 2016, Bolsonaro se tornou réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por injúria e incitação ao estupro, após ter dito à deputada federal Maria do Rosário que não a estupraria porque ela "não merece ser estuprada". No Mapa da Violência, uma mulher que usava um adesivo "Ele não" diz ter ouvido a frase "Você merece ser estuprada para aprender em quem votar", ao caminhar na rua. Outras mulheres relataram situações semelhantes.

"Como mulher, me sinto desrespeitada por diversos posicionamentos do candidato", afirma Ilona Szabó, cientista política especialista em segurança pública e co-fundadora do Instituto Igarapé. "É muito preocupante que, em um país com centenas de milhares de casos de estupro e violência doméstica, onde mulheres ganham menos que homens e ainda são discriminadas de diversas formas, um candidato a presidente não coloque o empoderamento feminino e o respeito às mulheres e seus direitos em primeiro plano. E pior, queira restringir direitos como a licença maternidade. Um imenso retrocesso", lamenta.

Maioria dos ataques é contra minorias

A esmagadora maioria dos casos (e a totalidade dos casos extremos) de violência motivada por ódio político, registrados nas últimas semanas, foi praticada por homens contra minorias. Para Daniela Lima, mestranda em Filosofia na UFF e escritora, "o avanço das conquistas das minorias, por menor que seja, representa, para as pessoas que sempre foram privilegiadas - ou seja, o perfil do eleitor do Bolsonaro -, uma ameaça a seus privilégios". "A gente pode citar uma série de declarações dele, de seus filhos, que de alguma maneira legitima a violência dessas pessoas, que transformaram sua insatisfação em discurso de ódio", afirma Daniela. "E isso recai fundamentalmente sobre as minorias, em especial as mulheres, porque foram as mulheres que tomaram a frente", conclui. No último dia 29, ao longo do sábado que antecedeu a última semana de campanha no primeiro turno, milhares de mulheres protestaram contra Bolsonaro por todo o país, naquela que foi considerada a maior manifestação destas eleições. Os números são imprecisos - a própria Polícia Militar se recusou a contar - mas, nas estimativas mais otimistas, cerca de 1 milhão de mulheres foram às ruas.

Desde esse dia, as intenções de voto de Jair Bolsonaro dispararam, embora não se possa afirmar que exista uma correlação entre as duas coisas. Os casos de violência também.

Para Moysés Pinto Netto, as redes sociais também contribuem para a onda de violência: "O efeito-bolha produz uma caricatura grotesca do outro e instiga a sensação de que ele está a serviço de um poder maligno, que precisa ser combatido a qualquer custo", explica. "As redes sociais produzem uma sincronização de afetos e ultimamente as estratégias usadas envolvem mobilização do ódio contra os adversários. Os dispositivos de comunicação tornaram-se máquinas de guerra para a deflagração de um certo discurso".

O perigo das redes também é reforçado por Ilana Szabó: "as redes sociais ampliaram a divisão da sociedade e a disseminação de notícias falsas em escala exponencial nos últimos anos", diz ela. "As forças-tarefa criadas para combater essas consequências negativas ainda não são suficientes e não conseguiram controlar ferramentas como o WhatsApp, que tem sido peça fundamental para a campanha de disseminação de ódio e desinformação que está ocorrendo nos últimos anos", alerta a especialista em segurança pública.

Mohallem tem opinião semelhante: "não há dúvidas de que as redes sociais têm relação". "Há vários estudos recentes que mostram que as redes sociais têm contribuído para a formação de bolhas", afirma, "e isso tende a reforçar posições ideológicas, posições que podem ser agressivas, porque não há ninguém ali para contestá-lo. Quando você está num ambiente de absoluta aprovação da agressividade, ela tende a ser reforçada".

Bolsonaro também foi vítima da violência

Bolsonaro, ele mesmo, foi vítima de uma facada, no dia 6 de setembro, durante ato de campanha em Juiz de Fora (MG). Na ocasião, todos os demais candidatos à Presidência prestaram solidariedade e suspenderam suas respectivas campanhas.

Ao comentar o episódio em que um eleitor do PT foi assassinado com 12 facadas na madrugada do último domingo, em entrevista para o UOL, Jair Bolsonaro classificou o ato como um "excesso" e questionou: "Quem levou a facada fui eu, pô. O cara lá que tem uma camisa minha e comete um excesso, o que é que eu tenho a ver com isso?"

Para Daniela Lima, o discurso de Bolsonaro tem "um impacto simbólico, e esse impacto simbólico tem, por consequência, o impacto material. E esse impacto material é imprevisível e incontrolável", ressalta.

Moysés acredita que "conversar cara a cara com as pessoas" poderia ser uma maneira de conter os ânimos em outras circunstâncias, mas reconhece que "como os casos recentes têm mostrado, nem sempre isso funciona. Os ataques são uma confirmação que a 'Internet das coisas' agora também se manifesta na transposição do discurso de ódio para a violência física direta. Nesse caso, só podemos confiar que as instituições estatais possam fazer algo para evitar a violência e, mais ainda, a sociedade civil comece a repudiar esse tipo de ataque".

Daniela vai além: "É uma cadeia que a gente não sabe onde vai terminar. Porque, independentemente de quem vencer as eleições, a gente já tem um estado de coisas alterado, a gente tem uma legitimação desse tipo de comportamento", conclui.

Cláudio Nascimento, coordenador executivo do Grupo Arco-Íris de Cidadania e diretor de Políticas Públicas da Aliança Nacional LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais), comentou, em entrevista ao DIA concedida na ocasião da agressão sofrida por Julyanna Barbosa, que qualquer ameaça (verbal ou física) deve ser registrada na delegacia mais próxima. "Precisamos dessas informações, porque o grupo consolida tudo isso. Pedimos que os órgãos de segurança estejam muito atentos ao policiamento nestes dias. É muito mais do que garantir o direito de ir e vir, é garantir nosso direito de existir".

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